1# EDITORIAL 22.1.14

"O FENMENO DOS ROLEZINHOS"
 Carlos Jos Marques, diretor editorial 

Tomou inicialmente os shoppings de So Paulo. Espalhou-se pelo Brasil. Ganhou tons de protesto, sem bandeira, sem liderana. Recebeu tratamento de movimento ilegal. Foi coibido com violncia. J vimos esse filme antes! Na ltima temporada (no faz nem um ano!) sem distino de classes. Desta feita levado aos holofotes por jovens da periferia. A nova onda dos rolezinhos galvaniza as atenes da nao e at do mundo. A Anistia Internacional pediu explicaes para o que considerou uma discriminao desnecessria e preconceituosa. Classificou de racismo envergonhado a resposta oficial, da Justia e da polcia. Uma forma de apartheid. Em suma, empurrou o Pas para o clube dos que cultivam a segregao. Condio nada vangloriosa. O rastilho de plvora foi aceso quando alguns shoppings resolveram pleitear nos tribunais a proibio dos rolezinhos, ferindo o direito de ir e vir de menores de idade, que, pelo estabelecido na liminar conquistada, no podiam circular livremente em suas dependncias. Ato contnuo, a restrio descambou para a represso violenta e seletiva por parte de soldados despreparados, reacendendo a mesma indignao que levou milhares s ruas no ano passado. Os governos federal, estaduais e municipais agora temem a adeso de faces mais violentas, do black blocs e do crime organizado. Ningum consegue ainda identificar os anseios dessa turma, que oscilam entre a pura brincadeira e a vontade de experimentar privilgios e ambientes reservados aos mais abonados. O diagnstico sobre tais mobilizaes no  simples. Mas as consequncias da radicalizao de ambos os lados, sim. Na prtica, o rolezinho no pode ser considerado crime. E, portanto, no  passvel de tamanha represso policial. A atuao dos agentes, nos limites da lei, deve ser exercida apenas em casos de ameaas concretas a pessoas e ao patrimnio. Proibir aglomeraes e encontros originalmente combinados nas redes sociais  coqueluche da nova gerao   atentado  liberdade cidad. O lamentvel disso tudo  que o fenmeno tinha no seu incio pinta de que no passaria de mero modismo das frias. Os equvocos das autoridades, que mais uma vez demonstram no aprender com os erros, levaram ao transbordamento dos nimos. E, ao que tudo indica, no inconsciente nacional h um mpeto adormecido de insatisfao que s precisa de meras fagulhas para acordar.

